Nem Ganância, Nem Estupidez. O Capitalismo Falhou.
Na apressada safra editorial de diagnósticos sobre o crash de 2008, um livro deve capturar atenção especial. Foi escrito por um juiz conservador e intelectual onívoro decidido a demolir a linguagem do economês. A Failure of Capitalism,The Crisis of ’08 and the Descent Into Depression (Uma Falha do Capitalismo, A Crise de 2008 e o Declínio Para uma Depressão) aponta o dedo para o mercado do qual o autor Richard A. Posner é um defensor insuspeito, como jurista palestrante da Universidade de Chicago.
O autor quer desacreditar as duas explicações mais correntes para a crise econômica - a ganância e a estupidez. Posner alega que os protagonistas do fiasco agiram exatamente como se esperava. Os agentes financeiros se aproveitaram do dinheiro barato e o público sabia que estava se endividando. Não constitui exatamente surpresa que o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan é acusado no livro de inflar a bolha imobiliária com a política de juros baixos e George W. Bush é descrito como um ignorante em assuntos econômicos que sumiu de cena quando o circo começou a pegar fogo.
Vindo de um intelectual esquerdista, a conclusão de que o sistema financeiro desregulado estava fadado ao colapso não despertaria atenção. Mas, em A Failure of Capitalism, Posner não defende o envolvimento do governo na economia. Ele faz uma quase mea culpa, ao afirmar que seu credo não intervencionista se aplica às outras áreas da economia, mas o sistema financeiro não só não é capaz de se regular como arrasta numa queda toda a atividade econômica e, portanto, precisa de mais e não menos rédeas do governo. “A situação é séria demais para ser encarada com uma visão laissez-faire ,” disse Posner numa entrevista recente à revista U.S. News and World Report.
Richard Posner vai contra a maioria dos economistas ao declarar que a depressão é inevitável e que os Estados Unidos vão enfrentar uma estagnação semelhante à japonesa na década de 90, com perda de influência geopolítica e consequências nefastas para o resto do mundo.
Mesmo as resenhas que apontam falta de consistência técnica do juiz que decidiu escrever sobre economia financeira, admitem não só a importância do livro como o fato de que sua linguagem acessível vai aumentar a circulação de idéias acima da polarização ideológica.
O juiz Posner deve sua nomeação para a Corte de Apelações de Chicago a Ronald Reagan. 
Ele é conhecido pela aplicação de noções econômicas de livre mercado ao estudo da lei. Escreveu mais de 30 livros, sobre assuntos que vão da reação ao risco ao declínio do intelectual público. Apesar de não receitar um tratamento compreensivo para o doente, Posner conclui que o país vai enfrentar um período de grande interferência do governo em várias áreas de atividade econômica.
Num momento em que o Partido Republicano, com a maturidade de um grêmio de escola secundária, tenta colar o adjetivo “socialista” nos Democratas, este conservador dá o recado curto e grosso: o mercado falhou e o governo só falhou por incompetência em regular o mercado.

A crise econômica mundial ao que me parece está muito mais galgada em decisões políticas erradas do que na teoria do (neo)liberalismo. O fato é que se tivesse sido seguido à risca pelos tomadores de decisão (políticos ou empresários) exclusivamente as regras de mercado (tecnicamente falando), talvez não tivéssemos a crise que temos hoje. A forma de operacionalizar dados técnicos e dispô-los em formato de decisão política não é tarefa das teorias neoliberais; como também não foi neste caso específico a teoria quem conduziu à crise mundial. A crise mundial foi, isso sim, obra de tomadores de decisões tanto empresariais quanto políticas. Decisões resultantes de um traçado de acordos e compromissos estabelecidos fora do alcance da(s) teoria(s). Com isso, pode-se concluir que a crise econômica não está relacionada ao liberalismo da forma que alguns autores fazem supor. Obviamente então não poderíamos atribuir a um fracasso do neoliberalismo algo que não tem relação com o mesmo. E a intervenção estatal? Essa sim, obra do liberalismo. Considerando que vivemos um liberalismo, podemos concluir que ele é tão liberal que até mesmo uma intervenção do Estado é possível; desde que de comum acordo como o foi. E até aqui podemos protestar. Fosse o contrário, tivéssemos um Estado não liberal ou social, será que a intervenção do Estado teria até mesmo sido cogitada? O fato de o Estado Social poder intervir não significa que o faria nem que o faria com base nas prioridades que surgiram com a crise financeira atual. Essa me parece ser a diferença mais significante a se refletir.
Me desculpe dizer isto, mas o comentário da Leidimar é completamente sem sentido.
Vou me ater a um só ponto. As teorias econômicas clássicas e neoclássicas descrevem o comportamento da economia de acordo com pressupostos dos comportamentos dos consumidores e das empresas. Dizer que os empresários deveriam ter agido de acordo com a teoria é o mesmo que dizer que os planetas estão errados ao não se mover de acordo com alguma teoria física proposta.
O argumento dela no fundo é: a realidade não seguiu a teoria; portanto a realidade está errada.
É razoável argumentar que empresários cometeram erros (apesar que seria mais preciso dizer que os bankers e analisas financeiros cometeram erros). Mas dizer que erraram porque não seguiram a teoria que deveria descrever justamente como eles agem é um absurdo. Há uma circularidade neste raciocínio.
A teoria clássica é uma teoria econômica descritiva, isto é, ela busca descrever e analisar o mundo como ele é. Ela descreve o comportamento humano (muito mal na minha opinião) a partir de conceitos como agentes racionais, maximização de utilidade, equilíbrio, entre outros.
Mesmo argumentando que podemos usar esta descrição para prescrever ações empresariais, o argumento continua sendo um raciocínio circular. A teoria pode ser usada de forma prescritiva para suas conclusões, nunca para suas premissas. As suas premissas é que devem refletir a realidade, e não o contrário.
O fato é que os agentes econômicos em questão não foram racionais (por uma questão de racionalidade limitada; seus modelos de risco estavam incorretos) e o mercado, por ação própria, teve incentivos desalinhados entre os executivos dos bancos e seus acionistas. Estas premissas não se sustentaram. A teoria em questão não prescreve que as pessoas devem agir assim. Ela parte do pressuposto que elas agem assim.
Obs: nem vou me dar ao trabalho de comentar a seguinte frase. Ela sozinha já se comenta: “considerando que vivemos um liberalismo, podemos concluir que ele é tão liberal que até mesmo uma intervenção do Estado é possível”…
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