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Memorialista Ficcional

terça-feira, 19 maio 20090 Comentários

Porque registrar um pequeno livro de memórias lançado há 30 anos, sem chances de ser traduzido no Brasil? Porque o autor se chama Clive James.  Muito antes destes tempos editoriais em que o gênero da autobiografia foi sacudido por tantas acusações de fabricação, James penitenciou-se no título.

unreliable-memoirsUnreliable Memoirs saiu há 30 anos na Inglaterra, o país que James adotou em 1961. Acaba de ser relançado nos Estados Unidos.

Escrito quando o autor ainda não tinha chegado aos 40, Unreliable Memoirs é uma narrativa deliciosa e confessamente imprecisa em que James, hoje beirando os 70 anos, examina sua origem australiana.   No final da Segunda Guerra, o pai de James, que havia sobrevivido a um campo de prisioneiros no Japão, morreu num acidente aéreo na viagem para reencontrar a família.

Numa entrevista hoje à estação de rádio  nova-iorquina WNYC, James diz que estava fadado a se tornar um delinquente mas acha que foi salvo por ter “algum talento” para a língua inglesa. E que talento.

Em Londres, James é um  “tudista” de plantão, erudito sem ser pomposo, um raro intelectual público com timing cômico. A edição britânica saiu com a advertência de um crítico na capa: “Não leia este livro em público ou você se arrisca a sofrer ferimentos internos ao tentar controlar o riso.”

clivejamesJames apresentou várias séries de TV e rádio e, em 2007, a revista online Slate nos deu de presente vários episódios de uma série intimista e fascinante, gravada na sala de Clive James em Londres, Talking In The Library. Nada de cenários e  acrobacias de câmera, só duas pessoas conversando. Se uma delas é Clive James e a outra é Julian Barnes, Michael Frayn ou Emma Thompson, para que mais?

Mas além de recomendar Clive James em qualquer formato, registro aqui a minha surpresa com o fato de que seu último livro de ensaios, o indispensável Cultural Amnesia, Necessary Memories from History and the Arts, não foi lançado no Brasil.cutural-amnesia O livro já saiu em edição  paperback por aqui.

Encontrei  James numa noite de palestra e autógrafos muito divertida, em 2007. Quando me apresentei como brasileira, ele perguntou por Vivi Nabuco.  Como só conheço sua filha Kati Almeida Braga, fundadora e proprietária da gravadora Biscoito Fino, não tinha nenhuma novidade para contar.

Ao contrário de Unreliable Memoirs, que pode ser consumido num longo dia de lazer, Cultural Amnesia é um livro para ser ter ao alcance e saborear aos poucos. Reúne mais de cem perfis de protagonistas do século 20 que devem ser conhecidos pelos adultos do século 21 , de Margaret Thatcher a Coco Chanel, de Jorge Luis Borges a F. Scott Fitzgerald, passando por intelectuais vienenses do começo do século sobre os quais o autor discorre com enorme eloquência. Com excessão de sua implicância injustificada  com o jazz além da década de 40, que o próprio James se resignou em não levar muito a sério naquela noite em que conversou com o público nova-iorquino, Cultural Amnesia é um ótimo roteiro de viagem cultural.


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