A Maldição do Terceiro Mandato
Quando um bilionário de 67 anos, conhecido por ser uma geladeira emocional, diz a um interlocutor, “Você é uma desgraça”, revela um raro momento de descontrole. Quando um prefeito em campanha pela reeleição diz a frase a um jornalista numa coletiva, será um sinal de que a maldição do terceiro mandato começou a se manifestar?
O prefeito nova-iorquino, que conseguiu torcer o braço do establishment local para reverter a lei proibindo a segunda reeleição, continua aparentemente imbatível. Os $ 80 milhões que, estima-se, ele deve gastar do próprio bolso até a eleição de novembro, transformam os oponentes em formigas. Disputar a eleição com Bloomberg é quase um gesto de abnegação ou masoquismo e o único candidato com estas qualidades parece ser o Democrata Bill Thompson. Bloomberg vai continuar no cargo, salvo algum escândalo da magnitude do que derrubou o governador Eliot Spitzer em 2008. Um cenário improvável e não é só porque ele continua solteiro e morando na própria casa.
Se eu tivesse passaporte americano, também votaria em Michael Bloomberg. Antes da recessão ele já era considerado a única escolha sensata para a cidade que já pareceu ingovernável no passado. Depois do crash de setembro, Bloomberg tem status de bote salva-vidas.
O Democrata que se tornou Republicano que se tornou Independente tem aparecido em anúncios de campanha numa clara tentativa de amaciar sua imagem. Na primeira eleição, quando era visto como um empresário competente e frio disposto a comprar o cargo, causou desconforto a revelação de que ele teria exclamado “Kill it”, numa reação à gravidez de uma executiva da empresa que leva seu nome.
Mas não há marqueteiro político que consiga controlar a bile de Bloomberg quando alguém toca no assunto dos seus bilhões incontestes a serviço da longevidade política. O incidente com um repórter político do jornal New York Observer aconteceu no dia 28 de maio, numa coletiva na sede da prefeitura. Bloomberg estava anunciando um programa de treinamento vocacional, produto do pacote federal de estímulo à economia e concluiu:“ Estou razoavelmente otimista de que o pior já passou.”
O repórter Azi Paybarah perguntou: No contexto da recuperação econômica, como fica o argumento do prefeito de que a gravidade do momento econômico em 2008 justificou a reversão da lei de limite de mandatos? Bloomberg não deixou o repórter concluir a frase, perdeu a paciência e disse a Paybarah para falar quando tivesse uma pergunta séria. Ao concluir a coletiva, diante das câmeras, aproximou-se do repórter e disparou: “Você é uma desgraça.” Diante do sucesso do vídeo de seu destempero em todos os canais de TV locais, Bloomberg mandou seu assessor de imprensa pedir desculpas a Paybarah, no dia seguinte.
A ironia é que parte do sucesso inicial de Bloomberg, cuja aprovação anda em 59%, vem do fato de que ele chegou como a personalidade anti-Giuliani. Seu antecessor, resgatado do purgatório político pelo 11 de setembro, antagonizava diversos segmentos da população. Com sua distância emocional, Bloomberg cortejou minorias e frequentou os políticos mais demagogos do Harlem para desobstruir sua agenda de governo. Ele parecia encarnar uma expressão usada com frequência para definir o comportamento ríspido do nova-iorquino: “Não é nada pessoal.”
Em mais de um episódio recente, Bloomberg tem escorregado na casca de banana do mellindre pessoal. O mais infame deles aconteceu quando o som do gravador de um blogueiro deficiente físico disparou por descuido e o prefeito interrompeu exasperado a coletiva, embora o jornalista estivesse numa cadeira de rodas e com dificuldade de alcançar o gravador.
O veterano colunista Steve Kornacki, colega de Azi Paybarah no Observer, lembra que a história desta cidade e deste estado acumula as carcassas de políticos extremamente populares que insistiram no terceiro mandato e foram para casa escorraçados, como o ex-prefeito Ed Koch e o ex-governador Mario Cuomo. Líderes com grandes personalidades, argumenta ele, acabam vítimas do cansaço inevitável provocado pelo excesso de exposição.
Bloomberg queria ter futuro como candidato presidencial e, quando ficou claro, no primeiro semestre do ano passado, que sua fortuna não faria diferença para a candidatura , desistiu de sair por cima, como um grande administrador, e agarrar o touro da recessão pelo chifre. É possível que uma recuperação econômica inesperada favoreça o terceiro mandato de Michael Bloomberg. Mas, ainda que consiga reinar sobre seu pavio curto, a partir de novembro, a herança do prefeito vai enfrentar testes mais imprevisíveis do que adversários políticos de carne e osso.

Interessante, ser prefeito de N.Y já credenciaria Bloomberg a pleitear ser candidato a presidente sem que ele sequer ambicionasse ser governador do estado antes. Donde concluo que ser prefeito desta cidade é muito mais importante ou ressoa mais do que ser governador. Impressionante.
Também surpreende essa migração democrata-republicano-independente.
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