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CHEGA DE MANUEL BANDEIRA! Achaques do jornalismo cultural

quinta-feira, 1 janeiro 20091 Comentário

A Revista Piauí completou dois anos de jornalismo refinado e quase alienígena pela qualidade, independência e franca dissociação do aparato de assessorias de imprensa e marketing. Inspirada na New Yorker, talvez a revista com o melhor texto do mundo, se é possível conferir esta distinção, a Piauí não reivindica o nicho cultural mas ocupa o território onde o resto da mídia brasileira deixou o capim crescer nos últimos anos.

O site Digestivo Cultural atinge dezenas de milhares de leitores potenciais e mantém o esforço agregador de conteúdo ao qual resistem inexplicavelmente os principais sites financiados pelas empresas jornalísticas. Diariamente leio de graça os grandes órgãos da mídia de língua inglesa e pesquiso seus arquivos sem ser perturbada por perguntas sobre meu CPF. Mas as seções culturais dos jornais diários emagreceram e a cobertura de artes na  grande imprensa, um termo cada vez menos apropriado, passa por um funil de considerações que pouco têm a ver com o mérito da pauta. Há dois anos, comecei a receber pedidos de artigos de várias revistas customizadas sobre os mesmos temas que se tornam mais escassos nos veículos principais. Pensatas sobre cultura, comportamento e política, perfis de personagens importantes pela marca que deixaram em seus campos profissionais e não por sua celebridade.

O jornalismo cultural é um dos principais atrativos para as hordas de jovens que as faculdades de comunicação continuam a expelir em direção a um futuro de modestas recompensas materiais ou subemprego. É raro encontrar um jovem entusiasmado com a chance de se tornar repórter especializado em commodities. Mas, acene com a possibilidade de escrever sobre música, cinema, dança e perceba logo a centelha no olhar.

Minha experiência, ainda que tardia,  confirma o fascínio. Já tinha anos de estrada como jornalista quando o destino, ou melhor, Roberto Muylaert, o antigo presidente da TV Cultura, me empurrou para a cobertura de artes e uma vida de encontros com ídolos variados. A rotina várias vezes me lembrou uma expressão favorita do meu primeiro chefe de reportagem, dos tempos de estagiária: “Ganha-se pouco mas é muito divertido.” Em uma das minhas primeiras entrevistas sobre cinema, estava tão nervosa que fiz dos contraplanos parte da reportagem, expondo a repórter intimidada e encolhida diante do maciço Sean Connery.
Como este site vai cobrir mais música do que a cotação da soja, achei por bem começar pedindo depoimentos a respeitados sobreviventes da nossa seara. Não é coincidência o fato de que nenhum deles tem carteira assinada como jornalista, embora todos continuem a contribuir para o melhor da cobertura cultural.

Caderno B, década de 70, Maria Lúcia Rangel à direita

Caderno B, década de 70, Maria Lúcia Rangel à direita

A jornalista Maria Lúcia Rangel, cujo caderno de telefones, escrito em caligrafia impecável, é um tesouro e testemunha a riqueza de sua experiência profissional, foi integrante de uma das melhores equipes de repórteres culturais - a redação do Caderno B do Jornal do Brasil. No auge da censura, na década de 70, a cobertura exigia não só imaginação mas envolvia risco. “Nós tinhamos um caderno preto, imposto pelos censores, com nomes que não podiam ser citados,” conta Maria Lúcia. Um deles, era o Chico Buarque - tanto que entrevistei Julinho da Adelaide, nome que ele inventou para poder falar de sua obra na imprensa.”

Quando fez uma reportagem sobre famílias de desaparecidos políticos, o nome de Maria Lúcia foi omitido por recomendação do editor, que temia represálias contra a repórter. “Nós eramos  jovens, indignados e estimulados pelo grande número de leitores que o jornal tinha na época,” lembra. “Mas o principal é que os editores, como o Humberto Vasconcellos, nos davam toda liberdade para escrever.”

A democracia brasileira promoveu a saúde do jornalismo cultural? Não, é a conclusão de veteranos como Humberto Werneck, autor da recém publicada biografia de Jayme Ovalle, O Santo Sujo. Werneck passou pelas redações de Veja, Jornal do Brasil e Playboy até se trancar em casa para se dedicar mais à carreira de escritor, francamente desencantado com o declínio que testemunhou. Se houver justiça, ela acha que o Google devia ser indicado para um Prêmio Esso de jornalismo porque “a reportagem ficou muito preguiçosa e nivelada por baixo. O serviço de busca virou a fonte da maioria.”
Humberto aponta a praga do mainstream na cobertura. “Durante muito tempo na Veja,” lembra, “um livro só era resenhado se estivesse na lista de mais vendidos. Ora, a função do repórter é descobrir o que é relevante. Há um entendimento burro do que o público quer.” Sem citar o nome, ele repete a frase que ouviu numa redação da boca do editor de livros: “Chega de Manuel Bandeira!”

Cultura=Entretenimento

Quem se lembra do Metropolitano, o jornal estudantil que teve circulação nacional, distribuído como encarte do falecido Diário de Notícias? Chefe de redação, Cacá Diegues, crítico de teatro, Arnaldo Jabor e crítico de cinema, Sérgio Augusto.

Sérgio Augusto

Sérgio Augusto

Ou, como apelidou Millôr Fernandes, Sérgio Augoogle, uma figura tão solitária hoje no jornalismo brasileiro que deveria ser tombada por alguma organização, mesmo que isto implicasse em pedir licença à The Nature Conservancy até para raspar a barba. Faço parte de uma confraria informal, beneficiária da cultura do Sérgio Augusto e da Maria Lúcia Rangel, que, para sorte de muitos fregueses, compartilham um endereço. Sérgio, além de contribuir com seus ensaios para o Caderno 2 e o suplemento Aliás do Estado de São Paulo, está debruçado em dois projetos épicos. A organização e apresentação de uma série de livros de cartuns da New Yorker, para  a Desiderata/Agir e a coletânea A Bíblia do Cinema, uma antologia de artigos do Cahiers du Cinéma, para a Compahia das Letras.

“A maioria dos editores não se interessa por cultura que, para eles, é entretenimento, show business,” lamenta Sérgio. “Tive a sorte de ser contemporâneo e participar de todas as publicações importantes do eixo Rio-São Paulo, do início dos anos 60 até hoje. A única exceção que me vem à memória é a revista Piauí—e não foi, acrescento, por falta de convite.”

Paulo Roberto Pires

Paulo Roberto Pires

Paulo Roberto Pires, cujo dia de 36 horas distribui suas energias entre o jornalismo, o ensino universitário, crítica musical, um blog e o cargo de editor na Ediouro, ecoa Sérgio, que abriga entre seus autores. “Nos últimos dez anos, o jornalismo cultural assumiu de vez  a mistura de produção artística com entretenimento,” diz. “Contaminou-se pela agenda em detrimento da discussão. Não acho que seja substancialmente pior, mas sem dúvida reflete o ar do tempo – o problema é que este ar não cheira muito bem. Ou seja, piorou o jornalismo ou piorou a idéia que se tem de cultura? Se esta última piorou, o jornalismo piorou também.”

Paulo é realista: “Não dá para falar de uma nova tradução de Valéry e ignorar o novo show do Skank. Mas é preciso equilibrar as duas coisas, este é o ponto.”

Mencione o Skank para Sérgio Augusto e arrisque ouvir a correção, “não é skank e sim skunk, gambá”. Sérgio é o elitista no melhor sentido da palavra abastardada pelos populistas Republicanos nesta campanha presidencial americana. Não espere dele a corte a modismos ou, como prefere, Sarah Palin, passar batom no porco. Sérgio vai expor a suína decisão de apontar a subprime candidata a vice-presidente e não perderá tempo com falsas  tentativas de equilíbrio ressaltando suas virtudes de comunicadora. Ele pertence a uma estirpe de jornalista cultural que segue o faro de suas curiosidades e não duvida da inteligência do leitor.

Humberto Werneck

Humberto Werneck

Humberto Werneck, o mineiro discreto e econômico nas palavras, confessa que a passagem do tempo o convenceu também de que personalidade editorial é oxigênio jornalístico. “Uma coisa que se vende como valor para os jovens é a capacidade de fazer igual. Isto convém apenas ao patrão que tira um e bota outro igual no lugar. Não vejo futuro sem a possibilidade de o jornalista usar o próprio olhar. Do jeito que está, as pessoas já saem da redação com a receita pronta, caímos na pirandeliana equação das aspas à procura de uma declaração.”

Incerteza Bem-Vinda?

Esta discussão não está sendo financiada por nenhuma empresa. Não tenho a menor intimidade com os códigos necessários para construir um site. Estava na platéia do show de estréia americana do nosso grande compositor Guinga, no Joe’s Pub, em Nova York, quando um jovem estudante de música, o Roberto Nascimento, me abordou. Ele se interessava pela minha cobertura cultural e, estudando manuais, desenhou este site - o logotipo numa noite passada em claro. A tecnologia permite que o conteúdo deste artigo chegue direto ao leitor, de graça.  Deixemos de lado as considerações econômicas – o fato de que é necessário um modelo de negócio para que esta conversa continue.
“Eu prefiro o estouro da boiada ao bicho preso no curral” diz Humberto Werneck, num comentário sobre a explosão de blogs e jornalismo online. Ele acha que a imprensa escrita pode se beneficiar do barulho. “É o escoadouro inevitável,” concorda Sérgio Augusto. “ Mas eu não creio que a imprensa escrita esteja prestes a morrer, como apregoam, felizes, aqueles que sempre me dão a impressão de estar cuspindo no prato em que não conseguem comer.”  Sérgio sugere o teste: “Ofereça a um blogueiro que sistematicamente desdenha a mainstream media um espaço na mídia impressa. Ele, como a Sarah Palin, convidada para vice do McCain, nem piscará os olhos, aceitará na hora. Neste caso, quem desdenha não quer comprar mas se vender.”
“A mídia fragmentada só nos faz bem, argumenta Paulo Roberto Pires. “Traz uma diversidade avassaladora e abre o campo para um novo tipo de mediação jornalística: o filtro inteligente que vai editando o que vem por aí. A meu ver, a qualidade do jornalismo hoje depende, paradoxalmente, da qualidade do leitor.”

Que o filtro inteligente se instale como um vírus, entre nós.

One Comment »

  • Marcelo Moutinho disse:

    Concordo com o Werneck. Escrevo sobre literatura para O Globo, mas meu site possibilitou o passeio por outras áreas com a quais tenho afinidade, como a música e o cinema. A mídia impressa mantém sua ‘aura’, mas hoje acho que lidamos com a internet sem o menosprezo de alguns anos atrás, quando blog, por exemplo, quase virou sinônimo de diário adolescente.

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