O TABU DA CONCORRÊNCIA
Quem ganha com o impulso inevitável para a derrubada de muros entre empresas de jornalismo? Será que a resposta é, todos? (Blog do Ricardo Noblat reforça nosso argumento, veja Comentários)
Os programas políticos das manhãs de domingo são uma tradição da TV americana que começou no pós guerra. O Meet the Press da NBC está no ar desde 1947. O Face the Nation da CBS, desde 1954. As quatro redes competem intensamente pelos convidados de domingo. O Republicano General Colin Powell, por exemplo, escolheu o Meet the Press para anunciar ao mundo seu apoio a Barack Obama.
Um segmento regular no programa da rede ABC, This Week With George Stephanopoulos, é a rodada de humor político da semana que passou. O anfitrião, ex-assessor de Bill Clinton, destaca os melhores momentos dos talkshows e sketches de comediantes. Um destaque freqüente é o Saturday Night Live - o SNL, como é conhecido o programa que teve um aumento de 50% de audiência nesta temporada, graças, em grande parte, a Tina Fey Palin. Ou será Sarah Palin Fey? O SNL é da rede concorrente, NBC. David Letterman também é de outra rede, CBS. Isto não impede George Stephanopoulos de destacar o que é melhor da semana, independente de haver sinergia corporativa. É claro que, se o SNL tiver um grande trunfo, como a visita de Sarah Palin, a NBC News poderá ser favorecida num furo mas o clip seguirá para todas as mídias, inclusive os blogs.
O Washington Post acaba de lançar o Political Browser – What’s Good on the Web, uma página agregadora de notícias, com reportagens da concorrência. Se o Wall Street Journal furar o Post, vai ter crédito nesta página. Um jornal tradicional, enfrentando o desafio econômico do declínio da midia impressa, convidando os leitores a deixar seu site e passear pela concorrência? Meus sais aromáticos, depressa! O editor do site, Jim Brady, disse que o papel do Washington Post não é só fornecer bom jornalismo do Washington Post e sim bom jornalismo, ponto.
Agora, abre-se a porta da sala de conferências para os gênios que vão descobrir como criar um modelo de negócios que não continue ignorando a presença do elefante instalado há algum tempo na mesma sala.
O Huffington Post, criado em 2005 pela comentarista política Arianna Huffington, é um fenômeno, o primeiro diário não impresso a conseguir um polpudo pacote de publicidade de uma grande agência. O Huffington Post nada mais é do que um site agregador, atualizado em alta velocidade, reunindo todas as mídias e produzido a baixo custo.
Os bloggers do Post não são remunerados. Não precisa ajustar sua vista. Sim, aquele desfile de celebridades que se vê no site, de Christopher Hitchens a Warren Beatty, passando por Barbra Streisand, não custa um tostão à patroa, uma realidade alarmante para quem, como eu, já passou da idade de se matricular no Senai para aprender outro ofício. A redação do Huff Post recebe salários mas suspeito que a equipe poderia ser acomodada nos cômodos do meu apartamento. Os autores não remunerados querem se exibir para os 4 milhões e 500 mil visitantes únicos que acessaram o site no mês de setembro e, não se deve esquecer, faturar o produto tão escasso no século 21 oferecido por Arianna Huffington: atenção.
A explosão do Huff Post, este ano (um aumento de 470% de leitores), é explicada facilmente pela cobertura política e bombasticamente liberal. O interesse na campanha jogou o site politico.com para o segundo lugar, com mais de 2 milhões e 300 mil visitantes únicos.
O sucesso do Huffington Post, a página do Washington Post e a citação habitual de mídias concorrentes na TV americana têm em comum a influência dos bloggers, a derrubada de cercas entre empresas de mídia e a marcha irresitível da tecnologia. A indústria do disco está em escombros porque se concentrou em mover ações legais, criar bloqueios e os artistas, encurralados entre a defesa do salário de executivos e manter a música fluindo em direção ao público escolheram… adivinhe?
Na mídia brasileira, a cobrança de acesso e o tabu sobre cobrir personagens associados a empresas concorrentes resulta numa realidade melancólica. Ao público, já tonto com tanta oferta, apertado no seu orçamento para consumir informação e entretenimento, resta o conteúdo limitado pelo critério corporativo e não jornalístico.
O Manhatan Connection, o programa pioneiro criado por Lucas Mendes em 1993, um momento que eu tive o privilégio de testemunhar, não existiu durante anos para certas mídias concorrentes da Globo, embora tenha sido um marco na história da TV a cabo brasileira e, portanto, uma notícia legítima. Já ouvi direto da fonte, um jornalista cultural que trabalhou para um grande jornal, que sua reportagem sobre um especial de TV que dirigi, com material inédito, foi “esquecida” porque eu aparecia no Manhattan Connection. Imagino até que o editor do jornal condenaria a estreiteza editorial. O limite não é oficial mas funciona como auto-censura. Repórteres tendem a cobrir o que está na zona de conforto das corporacões proprietárias da mídia para a qual trabalham.
Vai daqui a torcida para que o melhor da mídia se torne acessível em língua portuguesa e demore muito menos do que Frank Sinatra esperou para cantar ao vivo no Brasil.




Interessante matéria. A Globo sempre foi mais rígida do que as demais no tocante a esse assunto. Por ser a líder absoluta (já foi muito maior a diferença entre os índices alcançados por ela e as concorrentes)se dava ao direito de impedir até a divulgação de comerciais em que aparecessem artistas de outras TV’s. Hoje já não se sente tanto assim, mas a gente percebe ainda a dificuldade em conceder ‘créditos’ às concorrentes por assuntos em que, por qualquer razão, teriam sido mais ágeis na divulgação do evento. Não sei se é coisa brasileira ou o mesmo aconteceria nos países do chamado do 3o. mundo. Mas, sem dúvida, essa liberalidade americana tão cedo não chegará por aqui e talvez a explicação deva ser encontrada nos grupos -políticos, ou familiares, ou ideológicos- que controlam as emissoras (Marinho católico X Macedo evangélico (sic), por exemplo).
Existem pessoas pensantes ou não em ambos os lados dessa história. De toda forma, cabe ao leitor/telespectador separar o trabalho do profissional do veículo para o qual esse profissional mesmo trabalha.
O jornalista ao atender aos interesses de seu empregador, precisa imprimir ainda que minimamente a sua marca registrada; caso contrário restará estabelecida uma relação de escravidão intelectual, onde o prejuízo maior restará para quem pode menos. É o mais do mesmo.
Qualquer que seja o caso, o jornalista cuidadoso precisa estar atento a tais movimentos; o telespectador/leitor precisa prestar atenção nisso tudo ; -pensando- e a mídia precisa considerar a leitura que seu público faz acerca de tais acontecimentos.
Para mim, concorrência boa é aquela que nos leva a aprimorar a qualidade do trabalho seguinte, pautados por nosso último trabalho. O restante é perfumaria barata.
É bom ser desmentida pelo Ricardo Noblat. Para minha surpresa, recebi e-mails de novos leitores que descobriram o site através de uma nota do Blog do Noblat, cuja audiência supera a deste site em progressão geométrica. Nossa gratidão e a torcida para que as empresas de mídia façam referências entre si. E também que o jornalismo econômico pareça cada vez menos um relatório classificado que menciona empresas sem nome. E o jornalismo cultural possa citar com mais liberdade os conteúdos não produzidos pelos conglomerados que os abrigam. O medo de parecer que se está fazendo propaganda de marcas não faz justiça ao fato de que o conteúdo publicado por boas empresas jornalísticas está protegido dos departamentos comerciais.
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