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A VIRTUDE DE NÃO ENVIAR (E O VÍCIO DE INSISTIR)

segunda-feira, 19 janeiro 20098 Comentários

O anonimato e a agilidade tecnológica não justificam ignorar o bom senso e a cordialidade.

Por ter resistido tanto tempo a este meio e por ter observado muito do que não gosto, uma das primeiras preocupações, ao colocar este site no ar, foi evitar me juntar ao coro dos chatos.
 É com trepidação que envio e-mails coletivos, jamais diários, de preferência curtos para não desperdiçar o tempo de quem não solicitou a mensagem.
 Não é novidade que, se a Internet trouxe uma audiência planetária para muito conteúdo excelente que não teria sido revelado, deu voz a quem tem pouco a dizer. Ou quem tem algo a dizer mas quer decidir quando deve ser ouvido e por quem.

Depois de seis anos morando no mesmo endereço, lamentei que o proprietário do prédio tenha decidido consertar o interfone. O aparelho quebrado era mais uma tênue trincheira contra surpresas e interrupções. Recentemente ouvi o barulho de um objeto jogado contra a minha porta. Ainda não tinha me vestido e felizmente não dei de cara com o turista que obteve meu endereço postal numa lista de divulgação e decidiu trazer o livro de alguém em pessoa. Pensei, qual será o próximo recurso? Sacos de areia?

O e-mail pode ter agilizado a nossa rotina mas pode ser também uma espécie de parente distante que resolve aparecer à sua porta sem aviso prévio. Ninguém está preparado para lidar diariamente com a enxurrada de parentes.

Quem não tem sua pequena coleção de correspondentes convencidos de que merecem a sua atenção urgente para qualquer piada, inclusive as de mau gosto, qualquer divagação ou a enésima denúncia de que os americanos já redesenharam o mapa da Amazônia brasileira, prestes a ser ocupada pelo Tio Sam?

Como o telefonema envolve um engajamento e uma cara de pau maiores e é fácil para o afligido deixar a secretária eletrônica pegar qualquer ligação, o e-mail proprocionou o estouro da boiada e torna um inferno potencial a vida de quem depende de ficar online em tempo integral para trabalhar.

Um número limitado de pessoas tem seu telefone pessoal mas qualquer esperto pode obter seu endereço eletrônico. Assim, um dia de trabalho hoje envolve uma constante negociação na vala comum dos remetentes – amigos, interlocutores profissionais necessários, desocupados a distribuir  mensagens coletivas com denúncias, abaixo-assinados e gracinhas, pedidos de favores e até estranhos grosseiros, acobertados pela distância.

É natural que uma mídia recente como o e-mail produza excessos e desafie as normas de etiqueta que governam outras formas de comunicação. Aqui vai uma tentativa modesta de promover a civilidade e encontrar algum equilíbrio entre as vantagens da comunicação online e o enorme desperdício de energia que ela trouxe para a nossa rotina.

Sei que os jovens que crescem com mensagens de texto, Orkut, Twiter e outros recursos de benefício duvidoso  não esperam tanto das boas maneiras cibernéticas. Mas a juventude  ocupa menos de um quarto da nossa expectativa de vida e nada mais embaraçoso do que um adulto com modos de adolescente.

MENSAGENS COLETIVAS EM GERAL É melhor limitar o número de mensagens enviadas a mais de uma pessoa. Se o objetivo é marcar um jantar com cinco amigos, justifica-se copiar a mensagem. Quem volta de férias e quer contar suas aventuras com cópia para várias pessoas, deve saber que uma delas pode achar “o press release” uma indelicadeza. Ninguém se considera apenas um ítem numa mailing list.

ARQUIVOS ANEXADOS Quando se quer mandar dados não solicitados para amigos ou profissionais, porque não evitar passar dever de casa para eles? Coloque a informação dentro do corpo da mensagem e não torture os outros que possuem computadores e softwares diversos com arquivos que não podem ser baixados.

GRACINHAS E MANIFESTOS Quem está concentrado ao computador, tentando resolver problemas ou em busca de inspiração para escrever, detesta ser constantemente distraído por  piadas e vídeos pueris postados no YouTube. Mande suas piadas e brincadeiras apenas para os amigos mais próximos, aqueles que não estão sob a pressão constante de prazos de entrega de trabalho ou que podem ignorar a mensagem para abri-la mais tarde. Evite também os manifestos, e-mails coletivos que denunciam uma injustiça local ou internacional. Lembre-se que a sua indignação não é desculpa para incomodar e interromper a rotina dos conhecidos. Quando amigos recebem mensagens suas, vão abri-las como se fossem comunicações pessoais e não uma denúncia do Greenpeace.

ASSUNTO (SUBJECT)
 Quem precisa de concluir uma tarefa ou quer apressar a comunicação, deve sempre preencher a lacuna do assunto (subject). Use palavras precisas  - “pedido de entrevista para hoje, segunda-feira” “dúvida sobre x ou y” e vá mudando as palavras do assunto/subject à medida que a correspondência progredir, para o recipiente entender que há uma informação nova.

PESSOAL X PROFISSIONAL 
Se a comunicação por e-mail ou mensagem de texto derrubou fronteiras entre o que é estritamente pessoal e profissional, não se justifica abusar da boa vontade de amigos com um fluxo excessivo de mensagens. Não se iluda - a relativa informalidade do meio não lhe dá carta branca para tratar de um assunto de trabalho com um excesso de irreverência que pode se voltar contra o remetente, caso algo errado aconteça.

FAVORES Quem precisa de um favor, antes de enviar o e-mail pode fazer o teste: eu teria coragem de  pedir o mesmo em pessoa ou por telefone? Se a resposta for “não”, pense duas vezes antes de ir em frente.

DIALETOS Aqui é a questão de geração. Nem todos têm obrigação de saber que “u” substitui you, você, ou que LOL quer dizer laughing out loud (às gargalhadas). Para os mais jovens, as abreviações usadas em mensagens de celulares são rotina. Mas, ao escrever uma carta de seu computador, não há justificativa  para vulgarizar o  texto com abreviações, não importa a sua idade.

LIMITES Cuidado ao transferir toda interação pessoal para a Internet. Há pessoas que trabalham com assistentes que têm acesso à sua caixa postal eletrônica.  É mais prático mandar uma frase curta por e-mail, a qualquer hora do dia, para obter uma resposta simples, sem incomodar. Mas avalie se o assunto é rotineiro. Conversas sobre questões delicadas merecem contato pessoal ou por telefone. Da mesma forma, se o seu endereço eletrônico pessoal é acessado por outras pessoas, deixe isto bem claro para o remetente não se expor sem saber.

DISCÓRDIA 
Se uma pessoa lhe irritar por qualquer telefone, e-mail ou num encontro, evite dar o trôco por escrito pela Internet. E-mails enviados sob o impacto emocional podem ser guardados por anos e ampliar desnecessariamente um conflito. O comando “enviar” é uma arma poderosa e imprevisível. Uma carta que seguiria pelo correio postal seria escrita com muito mais cuidado. Segure a mágoa e a indignação e espere uma oportunidade melhor do que o acerto de contas por e-mail. A sugestão vale igualmente para disputas de trabalho, romances, brigas de família.

PRIVACIDADE Considere a mensagem por e-mail um gesto de contato semelhante a um telefonema ou uma visita a alguém.  O gesto consome o tempo do recipiente e, o fato de o remetente estar protegido da reação não justifica usar o tempo dos outros à toa. Da mesma forma, quem recebe e-mail respeitoso ou justificado, não deve se esconder e fingir que não recebeu. A não ser por filtros excessivos de spam, as mensagens chegam ou são devolvidas ao destinatário. É mais fácil enviar uma resposta rápida dizendo que não tem tempo de tratar do assunto no momento  ou não pode ajudar, do que provocar  mágoas e mal entendidos. A resposta imediata, ainda que curta e insatisfatória, é sua melhor aliada na luta diária contra a enchente de mensagens.

DIFERENÇAS A democratização permitida pela Internet não significa que todos os recipientes são iguais perante o remetente. Se você  conseguiu o endereço eletrônico de alguém famoso ou de um profissional que tem grandes responsabilidades, um servidor público ou um dirigente de empresa, não tente usar um acesso que não lhe foi oferecido, disparando opiniões não solicitadas. O típico profissional com muitas responsabilidades já enfrenta um um fluxo enorme de mensagens. Tirar casquinha do prestígio dos outros tentando forjar uma relação que não seria formada no mundo real é um hábito crasso. Se você é o assediado em questão, colecione algumas frases educadas que ajudem os chatos a se mancar. Não é grosseria deixar sem resposta e-mails frívolos de um remetente que já recebeu uma mensagem sua encerrando a conversa com educação.

CARTÕES ELETRÔNICOS Não mande um cartão de Natal, Ano Novo ou sobre qualquer outra efeméride com uma foto de seu bebê ou seu animal de estimação para dezenas de pessoas com quem mantém relações distintas. Para alguns, a mensagem dá a impressão do contato impessoal e de exibicionismo.

CIBERDOIDOS
 Nada impede que uma pessoa desequilibrada publique suas obsessões online. Se o seu trabalho traz alguma visibilidade, de vez em quando é bom se googlar. Há blogs, comunidades e outros sites que podem conter fotos da sua família e todo tipo de alegações. Uma troca inocente de mensagens com um estranho pode ser a origem da baixaria.

SITES E BLOGS Um território que ainda conheço mal. Como tantos estão em busca de atenção, uma boa parte da correspondência dirigida aos titulares de sites e blogs destina-se a promover o conteúdo do próprio  remetente (”leia mais sobre isto no meu blog”). Um comentário colocado abaixo de uma reportagem às vezes nada mais é do que desculpa para plantar o seu link no meio da discussão.  É uma forma de auto-promoção tão chata quando o gesto do colega de trabalho que lhe encurrala no corredor com uma série interminável de fotos do seu recém nascido. Cada site ou blog reflete a visão editorial do titular e o espaço para comentário não é uma democracia. É um convite a continuar a conversa, dentro de parâmetros arbitrários - texto correto, sensatez, cordialidade -  estabelecidos por quem coloca o site no ar.

INSULTOS E AMEAÇAS :
Aqui proponho um  limite à privacidade que tanto prezo. Quem se utiliza de endereços eletrônicos para enviar baixaria a um site de jornalismo  não deve esperar privacidade, assim como quem agride um estranho verbalmente não deve esperar passividade do agredido.

Em 16 anos de TV me acostumei, naturalmente, com insultos de toda ordem que não respondia para não legitimizar os desocupados. Mas também, ao longo deste tempo, comprovei minha teoria sobre a ambiguidade do remetente irado. Cada vez que respondo com educação um e-mail muito crítico mas civilizado, na grande maioria dos casos, a resposta vem se desmanchando de desculpas. No momento em que a pessoa percebe que há um ser humano real do outro lado, sente-se envergonhada do próprio destempero.

Espero que as principais empresas de mídia acabem com o populismo de considerar todos iguais online ou de proteger a identidade de sociopatas. Um jornalista experiente, criterioso e ético no seu trabalho de reportagem fez por merecer o lugar que ocupa. Não deve ter sua produção achincalhada e dividir espaço com mentecaptos, coléricos e exibicionistas. Respeito é bom e todo mundo gosta.

Por isso, o melhor método é mesmo, em dúvida, não apertar o “enviar”.

8 Comments »

  • Lucia disse:

    Espero receber aqui sugestões para este manual de etiqueta em evolução e histórias favoritas dos leitores sobre o desafio de administrar a interação online.

  • Rosana Hermann disse:

    Cara Lucia,
    Estou na rede desde seu surgimento e já passei por todas as fases e tipos de relacionamento online. Há muita gente carente, sem noção, sem educação, sem o menor bom-senso. Estas, formam o mar onde todos navegam. Mas não é pela água que me lanço diariamente neste oceano na minha nau de insensatez mas, pelas ilhas. Há pessoas incríveis a serem encontradas, há conhecimento primoroso a ser desvendado, há emoções a serem descobertas neste universo de conteudos.
    Acompanho e admiro seu trabalho há muito tempo.
    beijos,
    Rosana

  • Lucia disse:

    O manual continua em evolução.
    Peço que a caixa postal do site (falo das cartas e não dos comentários públicos - estes podemos bloquear) não seja usada para falar mal de fulano ou sicrano.
    Polêmica é outra coisa. Tentamos fazer um site de jornalismo, não um consultório para desabafo ressentido. Agradecemos a compreensão .
    .

  • Alfonso disse:

    Bom…já vi todo tipo de biruta na internet a ponto de achar que os birutas “fora da grande rede” eram até normais. Mas é assim mesmo…Não se esquecam que um certo Orson Welles provocou o maior pandemônio ao anuciar que a Terra estava sendo invadida por marcianos… E Welles fez isso usando o rádio. Tá certo que nem todo doido varrido é genial como era Welles. Mas eu duvido que a internet pudesse provocar algo parecido com que Welles provocou pois as pessoas, atualmente, não são mais tão ingênuas a ponto de acreditarem em marcianos invasores. Além disso a internet é interativa…coisa que a TV e o rádio nunca conseguiram ser de fato. Essa interatividade faria com que o programa que Welles fez fosse rapidamente desmascarado, por mais genial que Welles fosse…

  • Odone Bisaglia disse:

    Fico feliz que você tenha um site. Isto me dá a sensação confortável de que, não importa onde você esteja trabalhando, sempre terei acesso às suas idéias.A internet é apenas mais um veículo para você chegar aos seus leitores…

  • Giselle disse:

    Fiquei rindo sozinha quando voce diz… “e-mail tornou-se uma espécie de parente distante que resolve aparecer à sua porta sem aviso prévio. O problema é que ninguém está preparado para lidar diariamente com a enxurrada de parentes”…
    otimo!!!

  • Sérgio Augusto disse:

    Isto mesmo, Lucia: pau nos delinquentes da Web! Um manual de etiquetas talvez não seja o bastante, nem sequer uma escola correcional. ITM (é assim que se escreve “in the meantime” em bloguês?), recomendo às vítimas desses pitbullshitters que instalem em seus computadores um programa chamado MailWasher, muralha eletrônica contra spams de toda sorte, indispensável até para quem não é misantropo, como eu, com o passar do tempo, a explosão demográfica dos chatos e a democretinização promovida pela internet, fui ficando.

  • José Daniel Machado disse:

    Lúcia,

    Alguém precisava colocar ordem na casa e você começou com o seu manual de etiqueta. Na falta de um, estava usando o seguinte critério: só mandar uma mensagem se estivesse à vontade para enviá-la pelos correios (aqueles com envelope e selo, lembra?) e só levar em consideração as que também viriam como antigamente. O método é precário, mas funcionou. Daqui pra frente vou usar o seu manual. Parabéns e obrigado.

    Daniel

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