ego.com - Uma Promessa Quebrada
Em 2003 escrevi uma coluna para o Diário de Notícias de Lisboa criticando a epidemia dos blogs. Marcus Gasparian, editor da saudosa revista Argumento, me pediu para revisitar o assunto e, no fim daquele ano, publicou uma segunda versão do artigo. Desconfio que azedei uma amizade por conta de um blogueiro que vestiu a carapuça. Quebrei a promessa feita ao final, embora prefira continuar acreditando que faço aqui um site de jornalismo e não um blog. O texto foi citado, fui atacada (em blogs, é claro) e trago o assunto de volta para ver o que resistiu ao teste do tempo. O e-livro, no último ano, começou a emplacar com o Kindle da Amazon. Os blogs migraram para a mídia mainstream. Sinto notar que os vícios citados na diatribe original continuam evidentes mas a adesão em massa de jornalistas profissionais estratificou a blogosfera. E, finalmente, aprendi com Maria Lucia Rangel que não se tempera peixe de véspera.
ego.com
(publicado pela revista Argumento em dezembro de 2003)
Se Groucho Marx estivesse entre nós, quem sabe, abriria uma exceção ao seu desprezo por clubes que lhe aceitassem como sócio. Groucho poderia ser sócio fundador do MSB, o Movimento dos Sem-Blog. O MSB ainda não foi fundado, mas é apenas uma questão de tempo. Afinal, ainda há vida inteligente fora da blogosfera.
Há alguns meses, comecei a fazer uma lista mental das experiências que não tive. Não terminei de ler Ulysses. Só li o primeiro canto dos Lusíadas na escola secundária e não sou mais capaz de ir além da Taprobana. Não visitei as ruínas de Petra nem assisti a uma montagem da Flauta Mágica. Nunca aprendi a me equilibrar num rollerskate. Além disso, nunca nadei em pêlo nas águas de Fernando de Noronha. E, o que é pior, até hoje, nunca fui tirada para dançar pelo professor da gafieira Estudantina, na Lapa.
Como se vê, a vida passa ao largo e logo não terei nem memória para me lembrar do que não fiz. A lista é interminável e pode levar à melancolia crônica. E, enquanto tento me consolar com a brevidade da existência, sou objeto de uma ofensiva de alistamento, de amigos e sobretudo estranhos, para conhecer seus blogs.
Cedi à pressão e me pus a passear por uma seleção de blogs de jornalistas que respeito, em Portugal, no Brasil e na república de George W. Saí da experiência com a impressão de que meu tempo seria empregado melhor no ócio absoluto. Não sou contra as possibilidades expressivas e a agilidade dos blogs. É muito atraente a idéia de que adolescentes trocam o reality show da família Osbourne por uma incursão pela escrita. E não seria passadista a ponto de negar que o blog se tornou um novo formato de mídia.
Há cinco anos, fui despachada para o Silicon Valley com a tarefa de fazer um perfil de um guru da informática e captar as últimas tendências da tecnologia da informação. Senti-me obrigada a incluir na reportagem a chegada iminente do e-book, o livro virtual. Pois a tela de cristal líquido não se mostrou alternativa à página impressa e a postura exigida para a leitura no laptop é o bastante para criar uma indisposição ergonômica contra Guerra e Paz. O e-livro é um fato possível mas ainda não é uma alernativa. A blogosfera é superpopulosa e dizem que nasce um novo blog a cada minuto. Isto é um fato e não uma sentenca que deva inspirar profecias sobre a irrelevância do jornalismo convencional.
O blogo parece o novo trenzinho elétrico do ego. É um brinquedo elaborado, auto-indulgente e interessa acima de tudo a quem batuca o teclado numa incontinência verbal sem precedente desde que Rui Barbosa passou por Haia. Assim como os couch potatos obesos que povoam as salas de estar contemporâneas são consumidores vicários do narcisismo alheio pela TV, os blogaditos (dependentes de acessar blogs) contribuem para este novo umbiguismo. O blog ameaça também a relevância do psicoterapeuta. Onde mais podem-se deitar ruminações, associações livres, projetar neuroses, atacar inimigos, sem a menor censura? O blogo eliminou o conflito edipiano, já que o blogger conseguiu assassinar o pai/editor e consumou sua relação com o leitor/mãe inesgotável. Aliás a frase anterior é digna das sandices que tenho encontrado em blogs.
O blog é também um novo impedimento ao convívio social. Durante uma festa, um velho amigo queixou-se de que nunca temos tempo de nos encontrar. Concordei e combinamos, entusiasmados, um jantar em casa. O meu amigo é ocupadissimo. É um crítico de arte publicado em grandes jornais americanos. Pedir a ele, num e-mail, para escolher uma noite da semana, porque precisava temperar um atum de véspera. Recebi, não uma resposta, mas um e-mail coletivo, anunciando que a estréia do blog dele foi um sucesso, com não sei quantos acessos e, por favor, não deixem de recomendar aos outros. Nenhuma menção ao atum ou à minha companhia. E quando afinal ele veio, porque os homens, mais do que os peixes, morrem pela boca, continuou a falar do blog, sem notar que a gravura do Fairfield Porter ficou melhor na sala de jantar, perto da samambaia.
O blog sancionou a tentação confessional e promoveu uma estranha imodéstia entre pessoas inteligentes. Em meio a citações de Auden ou Kierkegaard, bloggers nos servem suas angústias e dores de cotovelo, sem contar as fotos das férias.
Nem todos que escrevem têm o mesmo talento para o mesmo formato. Assim como grandes repórteres investigativos podem ser cronistas sofríveis, o fato de que tenho o poder de ianugurar minha página na Internet não deve me levar a concluir que tenha algo a dizer. Encontrei ótimos comentaristas culturais que, deixados a sós com seu brinquedo, o blog, transformam-se em narcisos pueris. O que falta? É o personagem tão vilipendiado do editor cuja prensença pode nos proteger desta infantilização e impedir jornalistas como esta de usar o adjetivo vilipendiado no lugar de outro mais corrente.
Nada como o texto que passa pelo crivo de outros pares de olhos. A revista mais bem escrita do mundo é produto da devoção à clareza e da desconfiança do culto à personalidade, deliciosamente exemplificadas numa crônica de James Thurber, Dez Centavos a Dúzia. Thurber conta com Harold Ross, o fundador da New Yorker, lhe ofereceu um emprego, em fevereiro de 1927. Thurber queria escrever. “Redatores são dez centavos a dúzia,” reclamou Ross, um casmurro lendário. “O que eu preciso é de um editor. Ninguém aqui quer se tornar adulto. No ano seguinte, quando descobriu que Thurber, aleem de editar, começara a contrabandear seus próprios textos na New Yorker, Ross reagiu como quem surpreende o filho a se masturbar no banheiro. “Se eu atirasse este cinzeiro acertava na cabeça de 12 redatores!”, esbravejou. “Eles não têm a menor auto-discliplina.”
James Thurber acabou por refinar um dos mais saborosos textos da New Yorker. Mas Thurber “tornou-se adulto” sob a vigilância de Ross, um feitor cujo besteirômetro é uma ausência notável na blogosfera.
As quatro paredes da intimidade já são regularmente devassadas por todo tipo de baixaria na mídia. Agora descubro comentários meus atribuídos de maneira velada ou explícita em blogs. Será que vou ter que alertar amigos, em conversas, de que o que eu faço ou digo é off-blog? No momento, além de promover o MSB, já criei o meu anti-blog. Quem acessar o luciaguimaraes.com não vai encontrar nada. Apenas o silêncio gráfico numa alusão minimalista ao fato de que a vida é curta, o sublime é raro e os filés de atum não devem passar mais de três dias na geladeira.


Lucia,
Há invasão de blogs em nossas vidas. Nos falta tempo para le-los Voce, como sempre, traz um ar de “must” vindo de NY numa linguagem inteligente e sensível.
Prazer em abrir este blog Lucia Guimarães, e acompanha-lo.
O sublime é raro mas felizmente acontece!
E o atum…
Blog ou site, talvez aqui estejamos diante um caso raro em que a coisa é mais importante que o nome, tornando ociosa a discussão, pois não? Importa, para mim, o conteúdo, depois, o nome se imporá… Os fatos falam por si. Modestamente, acho bizantina (com perdão pela redundância) a discussão blog versus site, num caso como esse, pelo menos. Começando pela Lúcia, estamos todos é de parabéns com a novidade.
Eu penso que há blogs e blogs. Sinto você, Lucia Guimarães, angustiada (ainda!!!) com a história do blog, na busca talvez do cumprimento de exigências pessoais e jornalísticas excessivas ou altíssimas, conforme o caso ; onde presumo resquícios da educação recebida por gente da nossa geração (povo de mais de quarenta anos!!) .
Querida jornalista, relaxe! Tudo nessa vida pode ser bom, até mesmo o blog.
O importante é o espaço que se abre para o exercício das habilidades de sermos humanos; tanto para quem escreve, quanto para quem lê. O poder da palavra, requer a presença de gente de verdade nas duas pontas dessa história, como nem poderia deixar de ser. O meio é virtual mas as pessoas são reais.
Abraço grande dessa leitora do seu blog, danada de fiel!
Lúcia, se você tivesse cumprido sua promessa ficaríamos sem esse texto. Blog, site, twitter, email, celular, sinais de fumaça, são apenas ferramentas de comunicação. A habilidade para o bom uso do instrumento em produzir conteúdo de qualidade vai depender do autor. Cabe ao leitor selecionar seus canais de interesse.
A tecnologia tem influência marcante no comportamento e quando um ‘movimento’ está na crista da onda fica insuportável, porque só se fala naquele assunto naquele momento. Quando vem o ‘hype’ tudo fica exacerbado, mas depois há uma retração e as coisas se acomodam com um pouco de bom senso.
No momento, estou mais preocupada com o projeto de lei Azeredo, já aprovado no Senado, indo em caráter de urgência para a Câmara dos Deputados. Isso sim vai afetar a vida de quem usa a internet no Brasil, porque criminaliza o cidadão de bem e ainda é ineficiente nos seus propósitos de controle de pedofilia, crimes financeiros e pirataria via meios eletrônicos.
[...] Uma das grandes questões hoje em dia sobre o motivo para montar um blog não é sobre estar desempregado, empregado, ser jornalista ou não, mas ter realmente algo a falar. [...]
Não entendi, Lúcia. Você vai desistir só porque o nome é blog? Faz isso não…quem gosta de te ler, vai continuar lendo, seja onde for, mas o blog facilita, né?
Fico aqui na torcida para que você retome com força o projeto blog (risos).
Olha só.Tomei conhecimento do seu “site” atravéz de um blog; do Noblat.
É incrível como o ser humano, independentemente da época em que vive - e mesmo que seja um jornalista de expressão - encontra dificuldades para lidar com o novo.Os homens das cavernas custaram a aceitar a roda; imaginavam que com elas poderiam rolar ladeira abaixo…ahahaha…
Mas falando sério, agora: acho, sinceramente, que após teres contado essa história, a tua resistência se extinguiu e serás - óbviamente por teu talento- uma possível blogueira de grande visibilidade.
É o que te desejo, sinceramente!
Desculpe, mas o seu texto é seguido de comentários. Me parece um blog! Ou não?
Oh, deus! agora entendi…esse texto foi escrito em 2003…kkkkk Esse é um dos problemas de blogs, a gente lê rapidamente e já vai comentando sem prestar muita atenção, daí, o meu erro e o do luciano.
Que bom que eu estava enganada!
(risos)
Lucia, se não der pra te convencer que blogar pode ser bom, como, por exemplo, para o exercício e aprimoramento da crônica, espero pelo menos te ajudar a terminar de ler o Ulysses. Quando o publicar no próximo Bloomsday vou te mandar uma cópia do meu novo livro de crônicas, uma chave irônica para ler… Ulysses. Abraço.
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