O Mito da Independência Editorial de Aluguel
Eles são os mascotes da mídia. Comentaristas contratados para criar a aparência de equilíbrio editorial porque, diz a lenda, sem supervisão, jornalistas desenvolvem um esquerdismo infantil e sonegam informação ao público desprotegido. Pouco antes da eleição de novembro, durante um comício, Barack Obama atirou contra os canais de notícias de 24 horas.
Obama disse que era preciso ir além do impasse ideológico: “A um presidente ou qualquer político eleito, cabe resolver problemas, atender o público e não perder tanto tempo com escaramuças. Fiquem de fora dos noticiários de cabo. Eu assisto alguns desses programas e eles estão discutindo o passado. Nós temos que falar do futuro.”
A pressão pela audiência faz com o que o jornalismo de 24 horas aumente o volume. Ao ceder à burocracia do porta-voz liberal neutralizado pelo direitista, as empresas jornalísticas dão um tiro no próprio pé - porque a objetividade na cobertura dos fatos, por mais vulnerável que seja o conceito, não é protegida pela oposição de dois extremos. E o liberal sempre perde porque o liberalismo é a antítese da redução proposta pela direita que emergiu nos Estados Unidos na década de 80. Cuidado com os “terriveis simplificadores”, alertou o historiador suíço do século 19 Jacob Burckhardt, desconfiado do totalitarismo de todos os cantos do espectro político.
Nos Estados Unidos, os pistoleiros de aluguel da opinião são, na maioria, de direita. Desde 1994, quando Newt Gingrich capturou o Congresso sob o nariz de Bill Clinton e, em seguida, a ofensiva do conglomerado Murdoch colocou corporações como a CNN na defensiva, a demanda de mercado por mascotes de direita cresceu. A CNN tem até um segmento chamado “Uma Visão da Direita”, um título que devia ser acompanhado da advertência, “Favor não atirar amendoins para as espécies no estúdio.”
Como se colocar dois pólos ideológicos batendo testa no ar ou na página editorial fosse produzir o milagre do jornalismo ideal. Ou convidar um maníaco para debater um depressivo resultasse num debate são.
O que eles produzem é um circo de postura política descerebrada que inspirou um grande momento ao vivo, cortesia do comediante Jon Stewart ( texto sobre o comediante em Arquivo). Em outubro de 2004, convidado para o programa Crossfire da CNN, que veio a falecer meses depois em parte por causa daquele momento, Stewart ficou sério ao final da entrevista e perguntou porque seus anfitriões, um direitista e um liberal, continuavam a prejudicar o país.
A contratação de William Kristol (um dos inventores de Sarah Palin) para a página Op-Ed do New York Times provocou incredulidade até entre centristas mais tolerantes. Suas colunas eram longas caraminholas em que ele costura várias denúncias depois de um passeio habitual com seu cão farejador de liberais. Despachado pelo New York Times em janeiro, o colunista encontrou abrigo no Washington Post. O simpático Kristol parecia se levar a sério menos do que seus patrões ansiosos e, em 2008, foi arroz de festa no programa de Jon Stewart, onde continuou repetindo cenários fantásticos e enfrentava a contestação com um sorriso resignado. Ou seja, assumiu com prazer a caricatura de si mesmo.
Somos tratados como crianças incapazes de raciocínio elaborado e carentes de doses de liberalismo e conservadorismo que se cancelem mutuamente. Inspirada pela temperança do Presidente eleito , tenho me obrigado a prestar atenção em comentaristas que me faziam trocar de canal ou virar a página. Mas muitos deles, viciados por esta atmosfera corporativa, defendem o indefensável como sobreviventes de enxurrada agarrados a galhos de árvore enquanto esperam o resgate.
Não é exatamente um consolo saber que até Rupert Murdoch tem vergonha de seu empregado, o comentarista rábido Bill O’Reilly, âncora do lucrativo O’Reilly Factor. A revelação está na recém lançada biografia de Murdoch, The Man Who Owns The News, de Michael Wolff.
Obama deu cinco coletivas na última semana e é difícil imaginar os membros de seu governo passando ao largo da CNN, a MSNBC e a Fox mas o recado está dado. Obama muda o tom da conversa no país ao prometer que não vai se entrincheirar no chamado group think, o hábito de se cercar apenas de quem concorda com você.


Oportuníssimo comentário, Lúcia.
Também temos os nossos mercenários, versões atualizadas do que Oswald de Andrade chamava de “palhaços da burguesia”. Envergonham tanto o jornalismo que eu às vezes penso duas vezes antes de me identificar como jornalista, com receio de ouvir comentários do tipo “Ah, que nem fulano?” (Ponha no lugar do fulano o palhaço midiático de sua preferência.) O que vale dizer que, volta e meia, para evitar reações embaraçosas, me identifico profissionalmente como “do lar”.
Lucia:
O mundo está aguardando Obama assumir o poder nos Estados Unidos para que reste claríssimo (ou não) sobre a convergência direta e objetiva entre seu discurso e a concretude dos fatos , aferíveis para todos os fins, na vida cotidiana de seus governados, a princípio.
Daí para a frente é que o debate entre conservadores e liberais pode pegar fogo efetivamente. Até lá, parece que ambos os lados estão simplesmente esquentando e/ou regulando seus motores, por vias midiáticas. O americano aprecia esse show.
Quem viver, verá!
Abraço e parabéns pela observação refinada- a de sempre - naquilo que você escreve competentemente.
Lucia Helena
O comentário é mais do que atual e em terras brasilis, infelizmente não há tanta análise no jornalismo televisivo. Os canais 24 horas aqui costumam ser meramente declaratórios, com pouca análise e profundidade. Normalmente, recorre-se a ouvir especialistas das universidades federais A ou B, para passar aquele impressão de imparcialidade e objetividade. Entretanto, o público sente falta de uma análise mais acurada, de alguém contratado mesmo pela emissora para balancear a análise do intelectual de universidade com a do mundo real. Faço-me entender? Na tv brasileira, quem se arrisca a fazer isso? Paulo Francis foi pioneiro. Hoje tem o Diogo Mainardi no Manhattan Connection… e ninguém mais. Um comentário - curto - mas editorializado se vê no ótimo William Waack, no Jornal da Globo. E só. As outras tvs comerciais brasileiras se preocupam em discutir a briga da Luana Piovani com o Dado Dolabella e derivações.
Lúcia Guimarães
São realmente interessantes os temas que você nos oferece para conversar. Aliás, todo o seu espaço é construido criteriosamente. No caso ora proposto há alguns aspectos que, para nós brasileiros,
soam estranhos. Quero dizer com isso que não creio haver, por aqui, essa figura do palpiteiro/comentarista contratado (por alguém) pela TV e, portanto, o qualificativo de esquerda/direita ou liberal/conservador sempre é referido à própria empresa ou emissora. Há uma aparência de liberdade, mas sempre muito reduzida. Exceções feitas para certos programas para os quais são convidados os chamados cientistas políticos (sic) aos quais não lhes é negada liberdade de expressão. Mas para os profissionais ‘da casa’ é vedada a sua própria opinião. É famoso o caso daquele editor que informa ao seu redator-chefe: quer emitir sua opinião? Então funda um jornal.
Lúcia,
O alerta sobre os “terríveis simplificadores”, feito pelo Jacob Burckhardt permanece atualíssimo. Creio que é disso mesmo que também fala Claude Levi-Strauss, quando refere-se a um sistema de pensamento simplista predominante, que baseia-se em contrastes dualísticos como homem/mulher, gordo/magro, doce/amargo, cru/cozido, salgado/insosso, branco/preto, claro/escuro, esquerda/direita, bem/mal, bom/mau etc. Daí surgem representações claras em figuras mitológicas como o Lobo Mau e Chapeuzinho vermelho. Se a memória não me trai, Lênin também fez esse mesmo alerta, por outro caminho, em “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”.
Nos engendramentos midiáticos não é diferente. Geralmente, a abordagem sobre grupos, idéias, coisas etc. é feita aos pares, emparelhados de tal forma que ambos se opõem e ambos se necessitam, ao mesmo tempo. É o chamado contraponto. Cultura, como se sabe, é um processo dialético onde pontificam: tese, antítese e síntese.
Em qualquer parte, a audiência, em sua maioria, é silógica e pressiona para se retroalimentar na obtenção de silogismos. Cabe ao jornalismo ir além e servir matéria mais inteligente. Como diria Ferdinand de Saussurre (ao que certamente lhe faria coro Levi-Strauss), os antônimos — ou oposições binárias — estão na base das estruturas sócio-culturais (do pensamento, portanto) de toda sociedade.
Sendo assim, esse dualismo é aplicável a praticamente tudo, do sonho, à receita de cozinha, passando pela música, a mídia, o futebol, os mitos, a família, chegando à política e aos políticos, à Historia em geral, à biografia de cada um etc. Todos se servem dele, inclusive o jornalismo. É como se qualquer coisa, idéia e situação não pudesse escapar de se reduzir, simples e simploriamente, a dois lados. No caso da política, outra vez vale a advertência: cuidado com os “terriveis simplificadores”. Desconfie de quem lucra com suas idéias, acrescentaria. Acho extremamente alvissareiro Obama anunciar que não vai se refugiar no group think, isto é, o do pensamento único a seu favor.
Não sei de onde a Lúcia tirou essa idéia que a CNN fosse anti-Obama. Aliás, Obama virou superstar justamente pela sua habilidade de lidar com a mídia.
Mas no Brasil,onde existe gente com a cara de pau suficiente pra zoar a Sarah Palin em público e levar a sério uma Heloisa Helena em particular , essa discussão acima está anos luz de distância, pois nem de brincadeira uma emissora com o perfil da Fox News teria a menor chance de receber uma conssecão do governo para funcionar…ainda com ESSE governo atual. É o famoso “bolivarianisnmo low profile”.
Mas já que falamos do cenário americano…a verdade é que a grossura de certos comentaristas de direita não justifica a chatice e a hipocrisia dos “liberais”. Que tal falarmos sobre Noam Chosmky declarando que ” sentiu nojo” do discurso de vitória de Obama em Chicago logo após ser eleito. Chomsjy disse isso e não vi nenhum Obama frek pedinod pra ele ser expulso de território americano. Nem imagino por que dessa tolerância toda com a intolerância e a grossura do Chomsky…(risos)…
Gostaria de fazer um comentário a altura dos anteriores. Como não sou capaz, só posso dizer que estou contente com sua volta com força total. Carinho. Cecilia
Ártigo super interessante, sofisticado e com toques de humor. Obrigada pela ótima leitura.
No ramo dos palhaços midiáticos, não esquecer jamais do querido José Fernandes. Era uma figura folclórica, jurado do programa Flávio Cavalcanti nos anos 60, que fazia invariavelmente o papel do bad cop. O júri tinha de tudo, o garotão, a perua, o ‘entendido’ em música popular, e finalmente, o José Fernandes. Cuja função ali era a de esculhambar tudo e todos. A especialidade era falar mal das unanimidades, achar defeito em quem fosse mais querido, fazer o público se sentir idiota (”como assim, as rimas do Chico são forçadas e eu nunca tinha percebido?”) e, finalmente, atuar sobre a opinião dos espectadores. Tinha lá seus fãs.
Há falsos bad cops aos montes pipocando na imprensa e na TV. No fundo, é tudo josé fernandes.
Muito interessantes e oportunos os comentários sobre essas figuras do jornalismo, os “clowns”. Mas acho que no Brasil, além de cumprir o papel de criar um “falso” equilíbrio ideológico, eles também servem ao interesse das empresas de comunicação de terem alguém para criar polêmica, ir contra as unanimidades, como citou a leitora Joyce. Alguns exemplos de comportamentos desse tipo dentro e fora do jornalismo: Caetano Veloso, Gerald Thomas, Paulo Francis, Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor. (Todo mundo está otimista com relação ao Barrack Obama: sou contra. Todos estão preocupados com o aquecimento global: sou contra. …….)
O irritante é que alguns desses clowns muitas vezes usam argumentos desprovidos de qualquer razoabilidade e (quase) idiotas. Aí deixam de contribuir para qualquer equilíbrio ideológico devido à fragilidade da argumentação.
Nessa linha, discordo frontalmente do leitor Fernando sobre o Diogo Mainardi. Ele passa longe de fazer análises acuradas, é no máximo um gerador de sandices (às vezes) divertidas. Lúcia, tenho que me congratular com você, com relação às abobrinhas emitidas pelo Diogo que você tem que aturar no Manhattan Connection. Parabéns pelo trabalho e “keep up the good work”.
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